Me esqueço de mais um pedacinho dela.
Quando eu era criança, ficava deitado na cama tentando imaginar como me sentiria depois que ela morresse.
Mas agora está ficando cada vez mais difícil lembrar como ela era.
Tento me lembrar dela em todos os detalhes - mas por quê?
Do que tenho mais saudade é da sensação da presença dela...
Já faz muitos anos que sonho que vagueio pela casa, procurando por ela, mas não consigo encontrá-la.
Não sei por que é tão difícil para mim...
Há gente que viu os pais sendo assassinados.
Que perdeu as pernas na explosão de minas, que viu os filhos morrendo afogados...
Por que fico avó?
Qual o meu problema?
Mas é fato que ela fazia tudo parecer engraçado,
como o dia em que acendeu velinhelas no meu copo e no meu prato
e depois saiu dançando pela cozinha, com um pano nas mãos, cantando para mim.
Quando eu era pequeno, achava que ela era a pessoa mais feliz do mundo.
Eu ficava sentado horas a fio ouvindo as histórias que ela contava - sobre sua infância, e principalmente sobre os primeiros anos de casamento com meu avô.
Minha avó dava a impressão de saber por que a vida valia a pena,
e deixava qualquer um com vontade de ser como ela.
E é por isso que guardei absolutamente tudo que herdei dela - cadeiras, louças, abajures.
O forninho elétrico - e até um pedaço de papel-alumínio dobrado que ela usava para proteger a bandeja do forninho, com todas as suas marcas e manchas.
Já faz dez anos que mantenho o papel-alumínio dentro do forninho,
mesmo sabendo que ela iria brigar comigo por ser tão bobo.
Ela sempre tentava viver sem sentimentalismos - lembro que muitas vezes meu avô se aproximava dela e dizia "eu te amo", mas ela sempre desviava os olhos e não respondia nada.
Não que ela não amasse o meu avô...
Um dia, pouco antes da morte dele, ela chegou em casa depois de deixá-lo no hospital e sentou na varanda dos fundos com minha mãe.
Eu fiquei no meu quarto, com a cabeça encostada na porta, ouvindo o choro dela ecoar entre as casas...
Foi a primeira vez que ouvi minha avó chorar.
Depois que ele morreu, ela se desinteressou por várias coisas,
Especialmente a cozinha - e então ela passou a usar bastante o forninho.
Só que nos últimos tempos o papel-alumínio ficou realmente tão gasto, enrugado e furado que finalmente precisei tirar do forninho.
Alisei bastante com a mão e olhei bem para ele - estava um lixo.
Era ridículo que aquele objeto tivesse durado tanto...
E eu sabei exatamente o que ela teria dito: "Isso não presta mais para nada! Para que você quer guardá-lo?"
Era só um pedaço idiota de papel-alumínio...
Nem tinha mais nada a ver com ela.
Então eu me obriguei a amarrotar aquilo, e jogar fora.
- Ah, meu Deus...
- Por que fui fazer uma coisa dessas?
Minha querida avózinha faleceu hoje. Fiquei arrasado!! Já tinha lido esse texto na revista Piauí #45 do quadrinho do Chris Ware. Resolvi prestar essa homenagem a ela com esse texto que quase me faz chorar.
Todo Dia
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Escrito por Ailton Nunes às quarta-feira, junho 30, 2010 2 comentários
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Minuto de Junho
domingo, 13 de junho de 2010
Houve um instante... quase interminável,
Em que o segundo se arrasta,
E percebo cada movimento no piscar dos seus olhos,
Cintilantes e expressivos como estrelas em uma noite sem luar.
E as palavras ditas mal se fazem ouvir,
Pois só vejo os lábios se movendo bem devagar.
Quando passa o cabelo atrás da orelha,
Deixando visível parte de seu rosto,
Vejo sua fronte, e tudo parece quase parar
Quando sinto o perfume que me extasia.
Cada gesto fica gravado junto ao tom de sua voz.
Mas creio que ficará apenas nisso, nesses instantes.
Na minha lembrança, algo que poderia nunca terminar.
Que eu nunca quis que terminasse.
No tempo, na luz, no perfume e nesse instante tão longo,
Que acabou sem eu perceber.
Escrito por Ailton Nunes às domingo, junho 13, 2010 2 comentários
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